O governo dos Estados Unidos anunciou uma decisão que acendeu um alerta em Brasília: a partir de 5 de junho, as principais facções criminosas brasileiras, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), serão oficialmente designadas como organizações terroristas. A medida, que para Washington é um reforço no combate ao crime organizado, levanta uma série de preocupações no Brasil, especialmente sobre a soberania nacional e os riscos de sanções ou até mesmo de intervenções em território brasileiro.
O que muda com a decisão americana
A designação foi feita pelo Departamento de Estado dos EUA com base em leis americanas de imigração e segurança, além de uma ordem do presidente Donald Trump. Em nota, o governo americano, citando o senador Marco Rubio, destacou que o Comando Vermelho e o PCC são as organizações criminosas mais violentas do Brasil, responsáveis por ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e cidadãos.
Ainda segundo Washington, a influência das facções e suas redes ilícitas se estendem para muito além das fronteiras brasileiras, alcançando outros países nas Américas. Em estados como Goiás e por todo o Centro-Oeste, a atuação dessas organizações se manifesta em ramificações nas cadeias e nas ruas das cidades, impactando a segurança pública e o cotidiano dos moradores.
O medo brasileiro: risco à soberania e à economia
Nos últimos meses, o governo brasileiro tentou evitar essa classificação, temendo que ela pudesse abrir caminho para ações militares dos Estados Unidos no Brasil ou para a aplicação de sanções pesadas em setores econômicos e financeiros do país. Para especialistas, a medida representa um potencial risco à soberania brasileira.
Outra preocupação é que a designação pode atrapalhar esforços de cooperação investigativa entre os países. Com o novo status, as informações sobre as facções passariam a ser centralizadas na CIA (Central de Inteligência dos Estados Unidos) ou em órgãos militares, alterando o nível de sigilo e a dinâmica de colaboração. Para a população, isso pode significar uma instabilidade que vai além da segurança, atingindo desde investimentos até o dia a dia do comércio e dos negócios.
O foco de Trump no 'narcoterrorismo'
No atual mandato, o presidente Donald Trump vem reorientando a política externa dos EUA para a América Latina, direcionando suas forças militares para a região sob a justificativa de combater o que ele chama de “narcoterrorismo”. Nos últimos meses, as forças americanas bombardearam diversas embarcações no Caribe, fora da jurisdição dos EUA, alegando combate ao terrorismo.
No início do ano, a invasão do território venezuelano, que levou à deposição e captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, também foi justificada com base na luta contra o narcoterrorismo. O alcance de ações semelhantes em solo brasileiro, com base nesta nova designação, apesar de incerto, torna-se um risco real que o governo brasileiro busca afastar.
Encontros em Washington e o cenário político
No começo do mês, durante visita aos Estados Unidos, o presidente Lula discutiu com Donald Trump, na Casa Branca, frentes de trabalho para asfixiar financeiramente as organizações criminosas transnacionais. Na ocasião, segundo Lula, não foram tratados especificamente assuntos relacionados às facções brasileiras como CV e PCC.
O anúncio da designação americana também coincide com um encontro entre o senador Marco Rubio e o senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, que aconteceu na véspera em Washington. Um dia antes, o político havia se reunido com Trump na Casa Branca, acompanhado do irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. A proximidade temporal desses encontros adiciona uma camada de complexidade ao cenário político e diplomático brasileiro.
O Brasil agora observa os próximos passos de Washington e se prepara para lidar com as possíveis consequências de uma decisão que mexe com a segurança, a diplomacia e, potencialmente, a vida de milhões de brasileiros.



