Agronegócio brasileiro: A urgência de diversificar mercados e agregar valor para o futuro

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Enquanto o agronegócio brasileiro celebra uma fase de robusto crescimento nas exportações, consolidando-o como fonte decisiva de receita externa, um chamado à proatividade ressoa no setor. A capacidade de produzir em larga escala e atender a mercados exigentes é inegável, mas especialistas alertam para a necessidade de questionar a quem se vende e quanto valor é adicionado aos produtos antes de deixarem o país.

A China, inegavelmente, figura como um parceiro comercial de relevância estratégica. Em um período recente, o gigante asiático adquiriu aproximadamente US$ 100 bilhões de um total de US$ 349 bilhões exportados pelo Brasil. Contudo, essa relação de força impõe um desafio: compreender as projeções chinesas para sua própria segurança alimentar. Um estudo da consultoria Systemic indica que a China pode reduzir suas importações de soja em até 30% até 2040, em comparação com 2025, além de buscar menor dependência externa para proteínas animais. Embora sejam projeções sujeitas a incertezas, sinalizam uma tendência global de grandes compradores em diminuir sua dependência de terceiros.

Se a China planeja seu abastecimento para as próximas décadas, o Brasil precisa igualmente direcionar seu olhar para os mercados do futuro. A dualidade entre o que é urgente e o que é importante se faz presente. É imperativo manter a excelência na produção e exportação, atendendo aos clientes já conquistados para garantir a subsistência imediata dos produtores. No entanto, é crucial preparar o futuro enquanto o país ainda desfruta de uma posição de força. A busca por alternativas, quando um grande comprador altera sua estratégia, pode ser tardia, dado que a abertura de novos mercados demanda anos de negociações, acordos sanitários e presença constante das empresas brasileiras no exterior.

Além da diversificação geográfica, a pauta de exportação também demanda ampliação. O Brasil se destaca na exportação de commodities como soja, milho e carne, mas parte dessa produção pode ser transformada internamente. A soja, por exemplo, pode ser exportada como grão ou seguir para processamento, gerando óleo, farelo, proteína animal e biocombustível. Cada etapa de processamento viável no país impulsiona indústrias, transportes, serviços e pesquisa, criando empregos, gerando renda e incorporando tecnologia e inteligência aos produtos. Isso mantém a riqueza circulando por mais tempo na economia nacional.

A transição energética global também reconfigura a demanda. Com o avanço de veículos a hidrogênio e a eletrificação do transporte, o Brasil, com sua expertise em etanol e biodiesel, pode encontrar novas avenidas. O país pode explorar oportunidades em pesquisas que utilizem etanol para a produção de hidrogênio, por exemplo. Para tal, é fundamental investir em conhecimento e monitorar as exigências dos futuros mercados consumidores.

Essa transformação não ocorre por acaso. Aumentar o processamento interno depende de fatores como energia confiável, crédito acessível, regras estáveis, logística eficiente e acesso facilitado aos mercados para os produtos finais. A estratégia não é abandonar a exportação de commodities ou apostar em uma única tecnologia, mas sim expandir o leque de possibilidades. O desafio é entregar a safra atual ao mesmo tempo em que se garante que, em uma ou duas décadas, o Brasil mantenha sua competitividade, com novos compradores, produtos diversificados e tecnologia de ponta.

Em última instância, o Brasil precisa converter a solidez de suas exportações em liberdade para escolher mercados e em capacidade de reter mais riqueza dentro de suas fronteiras, fortalecendo sua economia em longo prazo.

Fonte original: https://www.canalrural.com.br/opiniao-noticias/o-agro-brasileiro-precisa-olhar-alem-da-china/