O setor de turismo no Brasil enfrenta um momento crítico, marcado por uma descoordenação financeira que tem gerado instabilidade. Enquanto fornecedores, como hotéis, intensificam a exigência de pagamentos antecipados – um desvio da prática histórica do mercado – as operadoras de turismo, responsáveis por intermediar e pagar por esses serviços, permanecem cronicamente vulneráveis aos ciclos econômicos. Essa dinâmica tem culminado em sucessivas crises e falências de grandes nomes do setor. Diante deste cenário desafiador, surge a Book2Pay, uma companhia recém-fundada que propõe um modelo alternativo, visando reestruturar o fluxo de pagamentos e trazer maior segurança para todos os elos da cadeia turística.
As Raízes da Instabilidade no Mercado de Turismo
Tradicionalmente, o fluxo financeiro no turismo brasileiro operava de maneira peculiar. Os clientes efetuavam pagamentos parcelados às agências de viagens, que então encaminhavam os pedidos às operadoras. Estas, por sua vez, fechavam acordos com uma vasta gama de fornecedores – desde hotéis e companhias aéreas até parques de diversão, restaurantes e locadoras de veículos – mas só quitavam suas obrigações financeiras com esses prestadores de serviço após o check-out ou a efetiva utilização do serviço pelo cliente. Este modelo, embora funcional por um período, mostrou-se frágil frente às flutuações econômicas. Crises como a alta do dólar e as recessões financeiras em meados dos anos 2010 impactaram drasticamente a demanda, levando à insolvência e falência de operadoras proeminentes, a exemplo da Marsans e da Nascimento Turismo. Mais recentemente, em 2025, a ViagensPromo, uma empresa em ascensão, também sucumbiu a dívidas milionárias, deixando um rastro de clientes sem viajar, e fornecedores e agências sem receber. Fábio Bordin, CEO da Book2Pay, ressalta que “a cada crise econômica, cada oscilação de mercado, diversas operadoras fecham as portas, deixando clientes e parceiros em prejuízo”.
Book2Pay: Uma Proposta de Pagamento Antecipado
Com três décadas de experiência no mercado de turismo, Fábio Bordin fundou a Book2Pay com o objetivo de oferecer uma solução estrutural para o problemático ciclo de pagamentos do setor. A crescente exigência de pagamentos antecipados por parte dos fornecedores, motivada pelo risco de calote, é um dos pilares da inovação da Book2Pay. Bordin exemplifica que resorts já demandam, para este ano, que pacotes de Natal e Ano Novo sejam quitados até setembro, muito antes da data de uso.
O modelo da Book2Pay inverte essa lógica tradicional: “Se o consumidor compra um pacote hoje, todo o serviço é pago em até 7 dias após a venda, e não após o uso”, explica Bordin. Diferente das companhias aéreas, que já recebem em prazos curtos (14 a 17 dias), a maioria dos hotéis, parques e outros prestadores de serviço ainda opera com o recebimento pós-check-out. A proposta da Book2Pay visa eliminar essa espera, garantindo maior liquidez e segurança para os fornecedores.
Mecanismo Financeiro e Transparência no Modelo Book2Pay
A sustentação do modelo da Book2Pay reside em uma gestão inovadora do fluxo de caixa. A empresa antecipa seus recebíveis através de um banco parceiro, responsável pela adquirência, mediante uma taxa negociada. Os valores obtidos com essa antecipação são imediatamente direcionados ao pagamento dos fornecedores. Outros custos operacionais, como campanhas publicitárias, ativações e eventos, são cobertos pela margem de lucro da empresa, que gira em torno de 10% na média.
A Book2Pay também privilegia e incentiva os pagamentos à vista, seja via cartão, PIX ou dinheiro. Bordin destaca que “quando eu vendo à vista, o valor já está na minha conta. E esse não tem antecipação, não tem o custo do crédito”. Essa abordagem não só otimiza o fluxo de caixa, mas também promove maior transparência para o consumidor final. Segundo ele, o popular “parcelamento sem juros” no mercado convencional, na verdade, dilui o custo do crédito no preço médio dos pacotes para todos os clientes, uma prática que a Book2Pay busca evitar, oferecendo clareza nas transações.
Visão de Futuro para o Turismo Brasileiro
Com um foco estratégico em clientes que buscam maior segurança em suas viagens, a Book2Pay projeta alcançar uma participação de mercado de 10%. Fábio Bordin reconhece que operadoras com estruturas já consolidadas podem enfrentar desafios significativos para romper com o modelo tradicional e adotar a antecipação de pagamentos. No entanto, ele expressa uma forte convicção de que o futuro do setor aponta para essa direção. “É uma curva bastante longa para passar a fazer a antecipação. Mas a minha opinião é de que o mercado todo, em breve, vai migrar para este modelo”, afirma Bordin, vislumbrando um mercado de turismo mais seguro, eficiente e transparente para todos os envolvidos.
A iniciativa da Book2Pay se posiciona como um divisor de águas, não apenas para mitigar riscos, mas para construir uma base financeira mais sólida e previsível para a indústria do turismo no Brasil, beneficiando consumidores, agências, fornecedores e as próprias operadoras.
Fonte: https://www.infomoney.com.br