Bovinos: A Adaptação por Trás da Ausência de Dentes na Mandíbula Superior

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Um detalhe peculiar na anatomia dos bovinos tem implicações profundas em sua alimentação e bem-estar: a ausência de dentes incisivos na parte frontal da mandíbula superior. Longe de ser apenas uma curiosidade, essa característica anatômica é uma adaptação crucial que, juntamente com a dentição remanescente, desempenha papel vital na ruminação, na estimativa da idade do animal e diretamente na sua capacidade de se alimentar e no seu desempenho. A elucidação dessas particularidades é fornecida por Rodrigo Gomes, pesquisador da Embrapa Gado de Corte.

Conforme explica Gomes, a porção superior da boca dos bovinos possui apenas os dentes pré-molares e molares, localizados na parte posterior e essenciais para a mastigação. Na região frontal, onde se esperariam os incisivos superiores, há uma estrutura especializada: uma placa fibrosa e resistente. Essa placa atua em conjunto com os incisivos inferiores para prender e romper o capim, facilitando sua ingestão. Uma vez dentro da boca, o alimento é então processado pelos dentes posteriores.

A ruminação, um processo intrínseco aos bovinos, está diretamente ligada a essa configuração dentária. Ao longo da evolução, esses animais desenvolveram mecanismos para otimizar o pastejo, permitindo-lhes ingerir grandes volumes de capim com partículas consideráveis e, posteriormente, reduzir seu tamanho. “Esta é a primeira função da ruminação: diminuir o tamanho das partículas do capim que ele ingeriu, levando este capim de seu estômago novamente à boca, para mastigá-lo por mais tempo”, detalha o pesquisador. É por essa razão que é comum observar bovinos deitados por longos períodos, realizando movimentos laterais constantes com a mandíbula inferior, remastigando o alimento.

A dentição dos bovinos também serve como um marcador da idade. Gomes esclarece que é possível estimar a idade aproximada de um animal observando a substituição dos chamados “dentes de leite” por dentes definitivos. Essa troca é mais evidente nos incisivos da mandíbula inferior. A substituição ocorre em pares e os novos dentes são visivelmente maiores. O primeiro par é trocado por volta dos 24 meses de idade, e o segundo, perto dos 34 meses. Por volta dos cinco anos, todos os dentes de leite já foram substituídos por dentes permanentes, que, com o avanço da idade do animal, podem ser perdidos.

O pesquisador enfatiza a importância crucial dos dentes para a apreensão do capim e outros alimentos, bem como para a mastigação eficiente. “Qualquer dificuldade que o animal tenha para isso leva a uma redução no consumo de alimentos, podendo refletir negativamente no seu desempenho e na sua saúde”, conclui Gomes, reforçando que a saúde bucal é um pilar fundamental para o bem-estar e produtividade dos rebanhos.

Fonte original: https://www.canalrural.com.br/curiosidades/por-que-o-boi-nao-tem-dentes-na-parte-de-cima-da-boca/