Um novo e abrangente estudo da Fiocruz e UFMG revela que desafios como calçadas perigosas, falta de segurança e de apoio afetam milhões de brasileiros com mais de 60 anos, impactando diretamente sua qualidade de vida e autonomia.
Imagine não conseguir sair de casa sem medo de cair por causa de uma calçada esburacada, ou viver com a constante preocupação com a violência na sua rua. Para milhões de idosos brasileiros, essa é uma realidade diária que vai muito além de qualquer doença. Uma pesquisa inédita da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) acaba de jogar luz sobre esses e outros desafios enfrentados por quem já passou dos 60 anos.
O levantamento, batizado de Elsi-Brasil, é um dos mais completos sobre o envelhecimento no país. Ele mostra que os problemas na cidade e na sociedade pesam muito na qualidade de vida dos mais velhos, indicando que a vida após os 60 anos envolve obstáculos que não se limitam apenas à saúde.
Medo de cair nas ruas
Um dos pontos mais chamativos do levantamento é o medo que os idosos sentem ao andar. Mais de 4 em cada 10 pessoas com mais de 60 anos que vivem em áreas urbanas, ou seja, 42,7%, contam que têm receio de cair por causa de defeitos nas calçadas ou ruas perto de casa. Esse número sobe para mais da metade (50,5%) entre as mulheres e para impressionantes 63,1% entre aqueles com 80 anos ou mais. É um problema real que atrapalha a liberdade de ir e vir e a participação social.
A coordenadora da pesquisa, Maria Fernanda Lima-Costa, explica que esses dados reforçam a necessidade urgente de adaptar as cidades para uma população cada vez mais envelhecida, incluindo acessibilidade, segurança para pedestres e planejamento urbano inclusivo. Em cidades como Goiânia e no interior de Goiás, onde muitos bairros ainda sofrem com a falta de estrutura, a situação se repete e exige atenção das prefeituras.
Insegurança na vizinhança
A sensação de insegurança também aparece como um fator que pesa no dia a dia. O estudo mostra que 12,1% dos idosos brasileiros, o que representa cerca de 3,8 milhões de pessoas, consideram que o bairro onde moram é muito perigoso por causa da violência. Esse medo afeta homens e mulheres, e pessoas de diferentes idades, mostrando que a violência urbana é um problema que atinge a todos e impacta diretamente a vida, a saúde mental e a interação social dos mais velhos.
Pressão alta atinge milhões
No campo da saúde, a pressão alta (hipertensão) segue sendo uma preocupação. A pesquisa, que mediu a pressão arterial dos idosos em suas casas, descobriu que 34,4% deles, ou cerca de 11 milhões de brasileiros, estão com a pressão em níveis considerados altos (14 por 9 ou mais). Essas pessoas precisam de acompanhamento médico para evitar problemas sérios como infarto, AVC e insuficiência renal.
Atinge mais gente conforme a idade avança: passa de 31,9% entre 60 e 69 anos para 40,1% entre aqueles com mais de 80. Como a pressão alta muitas vezes não dá sintomas, os pesquisadores destacam que fazer exames regulares e fortalecer o atendimento básico de saúde é fundamental para descobrir o problema cedo e evitar complicações.
Dificuldade na rotina e falta de apoio
A perda da capacidade de fazer tarefas diárias também é um tema central do estudo. Quase 20,4% dos idosos brasileiros, ou aproximadamente 6,5 milhões de pessoas, têm dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica, como se vestir, tomar banho ou se alimentar. Essa limitação afeta não só a autonomia deles, mas também suas famílias e cuidadores.
A situação é mais comum entre as mulheres (23,1% delas contra 17% dos homens) e aumenta muito com a idade, saltando de 13,9% para quem tem entre 60 e 69 anos para 44,2% entre os idosos com 80 anos ou mais.
Para completar, os dados mostram uma falha importante na rede de apoio. Entre os idosos que precisam de ajuda para fazer as atividades diárias, apenas 37,9% realmente recebem esse suporte. Essa proporção cresce com a idade, mas ainda assim evidencia que muitos idosos ficam sem a ajuda necessária, um alerta para a sociedade e para as políticas públicas.



