A Câmara Municipal de Goiânia direcionou a maior parte de sua agenda no primeiro semestre de 2026 para eventos protocolares, relegando a um segundo plano o debate e a votação de projetos essenciais para a cidade. Um levantamento aponta que quase 77% das sessões realizadas no período foram dedicadas exclusivamente a homenagens e cerimônias solenes.
Baseado em dados oficiais da própria Casa e divulgado pelo Poder Goiás, o estudo revela que, entre janeiro e meados de julho, das 230 sessões totais, 176 tiveram caráter solene ou especial, focadas na entrega de medalhas, comendas e títulos honoríficos. Em contrapartida, apenas 54 sessões foram ordinárias, voltadas à discussão e aprovação de proposições legislativas. Na prática, três de cada quatro encontros no plenário serviram para celebrar, não para legislar.
Essa desproporção levanta sérios questionamentos sobre o cumprimento do papel constitucional do Legislativo, cuja principal função é fiscalizar o Executivo, deliberar sobre políticas públicas e criar leis que visem à melhoria da qualidade de vida da população. Embora as homenagens sejam parte das prerrogativas da Câmara, a inversão de prioridades as transforma de exceção em rotina.
O volume de agracios é expressivo, com quase 16 mil pessoas homenageadas, incluindo autoridades, líderes religiosos, influenciadores, empresários, artistas e personalidades de alcance nacional. Esse cenário ganha um contorno particular em um ano eleitoral, onde tais cerimônias, naturalmente, aumentam a visibilidade e exposição pública dos vereadores diante de diferentes segmentos da sociedade.
Apesar das críticas, a Câmara defende-se, argumentando que as sessões solenes ocorrem em horários distintos das ordinárias e que seus custos estão devidamente previstos no orçamento. A Casa também alega que as homenagens refletem a diversidade de grupos representados pelos parlamentares. Contudo, essas justificativas não são suficientes para afastar a percepção de que o tempo e a atenção do Legislativo estão sendo desproporcionalmente direcionados a ritos protocolares, enquanto demandas urgentes aguardam deliberação.
O ponto central não reside na legitimidade de reconhecer cidadãos e instituições que prestaram serviços relevantes. O problema se manifesta quando essa prática suplanta a própria razão de ser do mandato parlamentar. Medalhas e títulos honoríficos não resolvem filas na saúde, não otimizam o transporte coletivo e sessões festivas não substituem a rigorosa fiscalização dos gastos públicos.
A eficiência de um órgão legislativo é medida pela qualidade de seus debates, pela profundidade de sua fiscalização e pelo impacto de suas leis. Quando as homenagens se tornam a pauta dominante, a mensagem transmitida é a de que o simbolismo e o protocolo passaram a ter mais peso do que a entrega de resultados concretos e a resposta aos anseios da população goianiense.
Fonte original: https://www.jornalhoraextra.com.br/destaques/camara-de-goiania-troca-debate-por-homenagens-e-transforma-plenario-em-palco-de-cerimonias



