As campanhas dos principais candidatos à Presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, apresentaram abordagens radicalmente distintas para enfrentar o persistente desafio dos juros de longo prazo elevados no país. Enquanto o programa de reeleição de Lula sugere a intervenção direta no mercado de títulos públicos, a equipe econômica de Flávio defende a austeridade fiscal como a única solução sustentável para aliviar os custos de financiamento que impactam toda a economia.
Em meio à aproximação da eleição de 4 de outubro e à contínua exigência de prêmios elevados por parte dos investidores em títulos públicos de longo prazo, José Sérgio Gabrielli, coordenador-geral da campanha de Lula, propôs a recompra de papéis pelo Tesouro Nacional. Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta terça-feira, Gabrielli argumentou que tal medida poderia conter os rendimentos de longo prazo, citando ações similares recentemente adotadas pelo Tesouro dos Estados Unidos. Ele também refutou críticas que pediam cortes urgentes nos gastos federais, classificando a visão de um Brasil ‘à beira do caos’ como exagerada.
Em contrapartida, Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e integrante da equipe econômica do candidato Flávio, defendeu categoricamente que apenas cortes nos gastos públicos representam uma maneira sustentável de reduzir as taxas de juros, em oposição a qualquer intervenção de mercado. Sachsida utilizou a plataforma X para descrever a proposta de Gabrielli como uma tentativa ‘artificial’ e ‘medíocre’ de suprimir os custos de empréstimos, alertando para os riscos inflacionários. ‘Tecnicamente, isso quer dizer que ele vai colocar liquidez na economia… na hora que ele fizer isso, a inflação aumenta. A hora que a inflação aumentar, os juros vão aumentar também’, afirmou Sachsida.
A discussão ganha relevância num cenário onde o Brasil enfrenta uma das maiores cargas de juros reais do mundo, pagando cerca de 7,5% em títulos públicos com vencimento em 2045. Esse cenário sublinha o elevado prêmio que investidores exigem para financiar o país no longo prazo, alimentado por incertezas sobre a capacidade do governo de controlar o crescimento acelerado dos gastos obrigatórios e as perspectivas fiscais. A dívida pública bruta do país, um indicador-chave de solvência, já atingiu 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), crescendo mais de 10 pontos percentuais desde o início do atual mandato de Lula em 2023, impulsionada principalmente pelos altos custos da dívida.
Analistas do mercado financeiro expressam ceticismo quanto à capacidade de ambos os candidatos de endereçar de forma eficaz as finanças públicas brasileiras. Contudo, a reação do mercado a pesquisas eleitorais tem sugerido uma preferência pelo plano econômico do candidato Flávio. O Tesouro Nacional, por sua vez, embora tenha realizado uma recompra de títulos em larga escala em março deste ano após a escalada de tensões no Oriente Médio, historicamente não emprega tais operações de forma rotineira. Autoridades do Tesouro têm reiterado que intervenções no mercado secundário, para lidar com alta volatilidade, seguem uma sequência de ações que priorizam a redução de ofertas em leilões e diminuição de volumes, recorrendo a recompras ou outras operações de liquidez apenas em último caso.
Fonte original: https://www.moneytimes.com.br/campanhas-de-lula-e-flavio-propoem-solucoes-divergentes-para-taxas-de-juros-de-longo-prazo-elevadas-jcav/



