Uma nova luz surge para milhares de pacientes que passam por transplantes de medula óssea no Brasil. Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) estão desenvolvendo uma terapia inovadora com células-tronco que mostrou resultados muito promissores. O tratamento é focado em combater a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH), uma complicação séria e muitas vezes fatal que afeta quem recebe uma nova medula.
O que é a DECH?
A DECH acontece quando as células imunológicas da medula doada, que são a "defesa" do corpo, encaram o organismo do paciente como um invasor. Elas começam a atacá-lo, causando estragos. Esse problema pode aparecer nos primeiros 100 dias após o transplante, de forma mais aguda, ou até anos depois, em um quadro crônico.
Como a doença afeta o paciente?
Nos casos agudos, a doença costuma atacar a pele e o sistema digestivo, provocando sintomas como vermelhidão, ardência, náuseas, cólicas e problemas no fígado. Já a forma crônica pode atingir todo o corpo, levando a rigidez nas articulações, dificuldade para respirar e úlceras dolorosas, impactando severamente a qualidade de vida de quem já enfrenta um tratamento tão delicado.
Limites do tratamento atual
Hoje, o tratamento mais comum usa medicamentos como corticosteroides para reduzir a inflamação causada por esse ataque das células de defesa. No entanto, muitos pacientes não respondem bem a esses remédios de primeira linha e precisam de opções mais fortes, com mais efeitos colaterais, ou até de imunossupressores. Além disso, nem todos os medicamentos necessários estão disponíveis pelo SUS, dificultando o acesso de muitos brasileiros.
MesenCell: a nova terapia
É nesse cenário que a pesquisa da PUCPR, coordenada pela Dra. Carmen Kuniyoshi Rebelatto, traz o MesenCell. Esta é uma terapia inédita no Brasil que usa células-tronco mesenquimais. Elas são retiradas da medula óssea de doadores, processadas em laboratório e congeladas até o momento de serem usadas no paciente.
Como as células-tronco agem
"Nossa terapia age na origem do problema", explica a Dra. Carmen, que também é responsável técnica do Centro de Tecnologia Celular da PUCPR. Segundo ela, as células-tronco liberam substâncias que modulam o sistema imunológico do paciente, diminuindo a proliferação das células que causam o ataque. "Conseguimos ver esse efeito até em laboratório", ela complementa, reforçando a eficácia da abordagem.
Resultados animadores nos testes iniciais
Inicialmente, o MesenCell seria usado em pacientes que não melhoram com os tratamentos tradicionais ou que não podem usá-los devido à toxicidade. Um estudo-piloto com 11 pacientes de DECH crônica já foi feito, e os resultados são muito promissores. Metade dos pacientes apresentou remissão completa da doença. Mais impressionante ainda: 75% dos problemas gastrointestinais e 100% dos sintomas de pele foram revertidos, mesmo em quadros graves. "Pacientes desenvolviam esclerodermia, com a pele endurecida, perdendo mobilidade. A gente conseguiu reverter esse processo", conta a Dra. Carmen, mostrando o impacto direto na qualidade de vida dos envolvidos.
Próximos passos e futuro
A nova fase de testes clínicos, que envolverá 20 pessoas, começa em setembro. Três hospitais de referência no Paraná participarão: o Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, o Hospital Erasto Gaertner e o Hospital Nossa Senhora das Graças. A pesquisa conta com apoio financeiro da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O objetivo final é conseguir parcerias com empresas farmacêuticas para que o MesenCell possa ser produzido em larga escala e chegue a mais pacientes que precisam dessa nova esperança, incluindo aqueles que futuramente realizarem transplantes em hospitais no Centro-Oeste e em todo o Brasil.



