Centenário da Fiorentina: Um Século de Paixão Violeta e Tradição em Florença

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Na cidade berço do Renascimento, Florença, o roxo assume protagonismo no cenário futebolístico. Neste sábado, 29 de agosto, a Associazione Calcio Fiorentina celebra seu centenário, marcando um século de uma relação quase religiosa com seus tifosi. A paixão pela Viola, como o clube é carinhosamente conhecido, transcende a recente escassez de títulos, com o último troféu conquistado no início do século XXI, solidificando-se como uma identidade inseparável da alma florentina.

A trajetória da Fiorentina, fundada em 1926, pode não ter o brilho imortal das obras de arte que adornam Firenze – o nome italiano da cidade – mas é rica em resiliência. O clube superou períodos de severas dificuldades financeiras, incluindo uma dramática falência, para ressurgir e manter sua tradição no Calcio. A identidade violeta, tão presente nas ruas e nas celebrações do centenário, como a que homenageou a réplica do David de Michelangelo na Piazzale Michelangelo, simboliza essa união única entre a equipe e sua cidade.

Fundação, Uniforme e Estádio

A origem da Fiorentina, em 29 de agosto de 1926, resultou da fusão entre o Club Sportivo Firenze (vermelho) e a Palestra Ginnastica Fiorentina Libertas (branco), uma iniciativa do Marquês Luigi Ridolfi Vay da Verrazzano. O primeiro uniforme refletia essa união, sendo meio vermelho e meio branco. A icônica camisa roxa, introduzida em 1929, tem duas versões para sua origem: uma lenda popular que atribui a cor a um desbotamento acidental das camisas no rio Arno, e a versão oficial, que credita a mudança ao encantamento do fundador Luigi Ridolfi pelo uniforme do húngaro Újpest após um amistoso. Para o centenário, o novo uniforme, lançado em parceria com a Joma, resgata as cores originais vermelho e branco, além do escudo com o lírio vermelho, símbolo de Florença. Treze lírios na manga esquerda homenageiam Davide Astori, ex-capitão da camisa 13, falecido em 2018.

O Estádio Artemio Franchi tem sido a casa da Viola por mais de 90 anos. Projetado pelo renomado arquiteto Pier Luigi Nervi e inaugurado em 1931, é um marco da arquitetura racionalista italiana. Originalmente batizado de Giovanni Berta, foi renomeado Stadio Comunale após a Segunda Guerra Mundial, e posteriormente Artemio Franchi, em homenagem ao ex-presidente da UEFA e da federação italiana de futebol. O estádio, que sediou jogos da Copa do Mundo de 1990, receberá a celebração do centenário com uma partida contra o Frosinone pela Série A italiana.

Títulos e Vice-Campeonatos

As maiores conquistas da Fiorentina concentram-se nas décadas de 1950 e 1960. O primeiro Scudetto veio em 1955-56, com a participação destacada do brasileiro Julinho Botelho. O segundo e último título italiano foi em 1969, tendo Amarildo como um dos protagonistas. O clube possui mais tradição na Copa da Itália, com seis troféus, o mais recente em 2001, na última grande glória da equipe, que então contava com os brasileiros Amaral e Leandro Amaral. A lista inclui ainda uma Supercopa da Itália (1996) e uma Taça dos Clubes Vencedores de Taças da UEFA (1960-61).

Apesar dos títulos, a Viola acumula dolorosos vice-campeonatos. Em 1957, perdeu a final da Copa dos Campeões da UEFA para o Real Madrid. Mais tarde, em 1990, sofreu uma derrota marcante na final da Copa da UEFA contra sua maior rival, a Juventus. Recentemente, a equipe florentina chegou a duas finais consecutivas da Conference League (2023 e 2024), perdendo para West Ham e Olympiacos, respectivamente, além de um vice na Copa da Itália de 2023 contra a Inter de Milão. No Campeonato Italiano de 1999, o time de Florença chegou a liderar a competição, mas viu o título escapar na reta final, um período marcado pela polêmica volta do atacante brasileiro Edmundo ao Brasil para o Carnaval.

  • Campeonato Italiano: 2 títulos (1955-56 e 1968-69)
  • Copa da Itália: 6 títulos (1939-40, 1960-61, 1965-66, 1974-75, 1995-96 e 2000-01)
  • Supercopa da Itália: 1 título (1996)
  • Taça dos Clubes Vencedores de Taças da UEFA: 1 título (1960-61)

Os Ídolos da Viola

Diversos nomes marcaram a história da Fiorentina, consolidando-se como ícones para a torcida:

  • Gabriel Batistuta: O “Rei Leão” ou “Batigol” marcou uma era na Fiorentina entre 1991 e 2000. Com 208 gols, dividindo a artilharia histórica, e três títulos (Série B 1994, Copa Itália e Supercopa da Itália 1996), o argentino é inegavelmente um dos maiores ídolos do clube.
  • Giancarlo Antognoni: Uma lenda local e recordista de atuações (412 jogos entre 1972 e 1987), Antognoni, campeão da Copa da Itália em 1975 e da Copa do Mundo de 1982 pela Itália, continua ligado ao clube como dirigente.
  • Kurt Hamrin: O sueco “l’Uccellino”, que também marcou 208 gols pela Fiorentina entre 1958 e 1967, é outro nome consagrado, tendo falecido em Florença em 2024.
  • Roberto Baggio: Embora reconhecido pelo talento, sua transferência para a arquirrival Juventus ainda gera ressentimento entre os tifosi.

Lendas Brasileiras na Toscana

A Fiorentina nutre um carinho especial pelo Brasil, forjado pelos feitos de ídolos como:

  • Julinho Botelho: Chegou em 1955 e foi crucial no primeiro Scudetto, marcando o gol que garantiu o título. Sua decisão de permanecer na Itália, abrindo mão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, e sua saudade do país natal, que lhe rendeu o apelido de “Senhor Tristeza”, eternizaram sua lenda.
  • Amarildo: O “Possesso” brilhou no segundo Scudetto em 1969, com seis gols na campanha, após sua passagem pelo Milan.
  • Dunga: Capitão da seleção brasileira tetracampeã mundial, o volante conquistou o coração florentino com sua garra e liderança entre 1988 e 1992. Sua frase “A Fiorentina não é somente uma questão de coração, mas de alma. Porque o coração um dia para, mas a alma jamais” ilustra a profundidade de sua conexão.
  • Sócrates: O “Doutor” teve uma passagem breve e conturbada por Florença em 1984, atribuindo seu insucesso a fatores políticos e ideológicos, dadas suas convicções e o ambiente do futebol italiano da época, afirmando ter sido “aniquilado” por uma oposição política.

Queda e Renascimento

O início do século marcou o período mais sombrio da Fiorentina. Sob a gestão de Vittorio Cecchi Gori, o clube acumulou dívidas exorbitantes, culminando na decretação de falência em 2002. Rebaixada sumariamente à quarta divisão e temporariamente rebatizada como Florentia Viola, a equipe contou com a lealdade de Angelo Di Livio, que se tornou um símbolo de resistência ao permanecer no clube. Sob nova liderança da família Della Valle e com o inestimável apoio da torcida, a Fiorentina orquestrou uma notável recuperação, garantindo acessos consecutivos, recuperando seu nome e identidade, e retornando à Serie A em 2004.

Outras Curiosidades

  • Rivalidade: A animosidade mais intensa da Fiorentina é com a Juventus. A rivalidade foi acirrada pela polêmica decisão do Scudetto de 1981-82, quando um gol da Fiorentina foi anulado e a Juventus venceu com um pênalti duvidoso, garantindo o título por um ponto. A venda de Roberto Baggio para o clube de Turim em 1990, logo após a derrota na final da Copa da UEFA para a própria Juventus, provocou violentos protestos em Florença.
  • Hino: “Canzone Viola”, também conhecido como “O Fiorentina”, é um dos hinos mais antigos e tradicionais do futebol mundial, composto em 1930.
  • Mascote: Lorenzo De’ Viola, um leão antropomórfico vestido de violeta, foi escolhido como mascote oficial em 2022. O nome homenageia Lorenzo de’ Medici, patrono das artes do Renascimento, e remete ao Marzocco, o leão símbolo da antiga República Florentina, que personificava a força de Florença e, na mitologia local, era o único animal capaz de vencer a águia, símbolo da rival Pisa.
  • Confrontos com Brasileiros: A Fiorentina já enfrentou diversos clubes brasileiros em amistosos. Em 2014, o Palmeiras venceu a Viola por 2 a 1 no Troféu Julinho Botelho, no Pacaembu. Em 1960, o Santos de Pelé sofreu uma derrota por 3 a 0 no Artemio Franchi.

Fonte original: https://placar.com/futebol-europeu/100-anos-da-fiorentina-historia-idolos-e-curiosidades-da-viola/