Fim da Moratória da Soja pode devastar 1,4 milhão de hectares da Amazônia, alerta estudo

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Pesquisa projeta aumento de desmatamento e emissões de CO2 com o fim do acordo voluntário, enquanto STF se prepara para julgar o tema em agosto.

A Amazônia pode perder o equivalente a mais de 1,4 milhão de hectares de floresta em apenas dez anos se a Moratória da Soja for descontinuada. É o que revela um novo estudo publicado na prestigiada revista Science, acendendo um alerta sobre as consequências ambientais e climáticas de um possível fim do acordo que protege a maior floresta tropical do mundo. A dimensão do impacto é alarmante: essa área adicional de desmatamento representa um aumento de 14% sobre as taxas históricas e liberaria um volume gigantesco de gases que intensificam o efeito estufa, com sérias implicações para o clima global e, consequentemente, para a vida das pessoas em todo o Brasil.

O que aconteceu

Os pesquisadores por trás do artigo estimam que a perda florestal sem a Moratória da Soja liberaria cerca de 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente na atmosfera. Para se ter uma ideia, esse volume se compara ao total de emissões anuais do Canadá, um dos países com maior pegada de carbono per capita do mundo. Além disso, o estudo aponta que o fim do pacto voluntário poderia intensificar a pressão sobre regiões já vulneráveis à expansão agrícola desordenada e à especulação de terras. A estimativa é de um impacto potencial sobre até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas, sobretudo em áreas onde há planos de desenvolvimento de infraestrutura, tornando-as mais acessíveis para atividades ilegais.

Entenda o caso

A Moratória da Soja é um marco na proteção ambiental brasileira, estabelecida como um acordo voluntário entre grandes empresas do setor, organizações da sociedade civil e o governo. Desde 2008, o pacto impede a compra de soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia, criando um incentivo econômico para a conservação. O estudo, conduzido por cientistas do WWF Brasil, Greenpeace Brasil, Land Conservation Association e universidades americanas, não apenas projeta o futuro, mas também analisa o sucesso da Moratória. Nos seus primeiros dez anos, o acordo foi responsável por uma redução de 35% no desmatamento em regiões de alto risco para a soja, poupando cerca de 1,8 milhão de hectares de floresta.

No âmbito econômico, a pesquisa desmistifica a ideia de que a Moratória teria prejudicado os produtores. Os dados mostram que apenas 739 mil hectares de áreas aptas para a soja foram desmatados legalmente após 2008, e a maioria não estava ligada a produtores de soja. Há ainda 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e aptas para o cultivo na Amazônia, indicando que não faltam terras para a produção sustentável. Mais importante, a análise comparativa revelou que o acordo não afetou a remuneração dos produtores e nem causou distorções no mercado.

Impacto para a população

A decisão sobre a continuidade da Moratória da Soja está nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF). O plenário da Corte deve começar a analisar o caso em 12 de agosto. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) já havia anunciado sua desfiliação oficial da Moratória, um sinal de que o futuro do pacto é incerto. As ações jurídicas em discussão incluem uma liminar do ministro Flávio Dino e questionamentos sobre a validade de uma lei de Mato Grosso que concede incentivos fiscais e doações de terrenos públicos, potencialmente conflitantes com os objetivos da moratória.

Para os brasileiros, o fim da Moratória da Soja não significaria apenas a perda de florestas, mas um agravamento das crises climáticas, com impactos na qualidade do ar, no regime de chuvas – essenciais para a agricultura em todo o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, incluindo Goiás – e na biodiversidade. A Amazônia é um regulador climático fundamental. Sua preservação é vital para a estabilidade ambiental e econômica do país e para a saúde do planeta, influenciando diretamente a vida de milhões de pessoas, desde a mesa do consumidor até a subsistência de comunidades tradicionais. A decisão do STF definirá não só o futuro de um importante acordo ambiental, mas também a direção da política brasileira para o meio ambiente e o agronegócio nos próximos anos.

A expectativa é alta para o julgamento no STF, que terá o peso de decidir sobre a proteção de um dos maiores tesouros naturais do Brasil e as consequências para o clima global.

Fonte: https://www.canalrural.com.br