Apesar de possuir uma dívida pública proporcionalmente menor que a de grandes economias desenvolvidas como Japão, Estados Unidos e França, o Brasil enfrenta um custo de financiamento significativamente mais elevado. Esse aparente paradoxo revela uma complexa dinâmica global e local, onde o fim da era de juros baixos e a desconfiança dos investidores impõem desafios fiscais crescentes ao país.
O cenário do endividamento público deixou de ser uma preocupação exclusiva de nações em desenvolvimento para se tornar um tema global. Após anos de estímulos e gastos governamentais elevados, a dívida pública mundial é projetada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para se aproximar de 94% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, atingindo a marca de 100% até 2029. Entretanto, o mero volume da dívida não define sua sustentabilidade. A capacidade de um país de gerir seu passivo está intrinsecamente ligada ao custo dos juros, ao ritmo de crescimento econômico, à moeda em que os títulos são emitidos e, crucialmente, à confiança dos investidores.
O fim da era do dinheiro barato
A crise financeira de 2008 inaugurou um longo período de juros globalmente baixos, permitindo que governos ampliassem seus gastos sem que o serviço da dívida comprometesse drasticamente os orçamentos. Contudo, a ascensão da inflação global reverteu essa tendência. Bancos centrais, como o Federal Reserve nos EUA, têm elevado suas taxas para combater a persistência inflacionária. Essa guinada significa que dívidas contraídas a custos irrisórios agora precisam ser refinanciadas a taxas consideravelmente mais altas, apertando o cerco sobre as finanças públicas mundiais.
Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, o risco reside precisamente na combinação de um alto estoque de dívida com um custo de rolagem mais caro. Quando o custo médio da dívida supera o crescimento econômico, a relação dívida/PIB se deteriora rapidamente. Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, reforça que, embora déficits fiscais sejam crônicos, a alta dos juros globais torna a situação atual mais crítica.
Impactos de uma dívida cara
A elevação dos juros no serviço da dívida gera um ciclo vicioso. Governos, ao emitirem mais títulos para cobrir seus déficits, disputam o capital dos investidores, exigindo retornos maiores. Isso pressiona os juros de longo prazo, encarecendo o financiamento de projetos, desestimulando investimentos produtivos e, em última instância, impactando a geração de emprego e renda. O resultado é um crescimento econômico mais lento, que, por sua vez, torna a dívida ainda mais pesada em relação ao PIB.
Brasil: Peculiaridades e fragilidades
As projeções do FMI para 2026 indicam que a dívida bruta brasileira corresponderá a 96,5% do PIB, percentual inferior ao de nações como Japão (204,4%), Itália (138,4%) e Estados Unidos (125,8%). Contudo, esses números mascaram as diferenças nas condições de financiamento. Os EUA, por exemplo, se beneficiam de possuírem a principal moeda de reserva global, um vasto mercado de capitais e maior potencial de crescimento. O Japão, por sua vez, emite títulos em sua própria moeda e conta com uma robusta base de compradores domésticos.
A principal fragilidade brasileira, segundo Barros, reside no histórico de desequilíbrio fiscal e inflação persistente, que força investidores a exigir um prêmio de risco maior para financiar o governo. Além disso, o real não é uma moeda de reserva, o que limita a demanda global pelos títulos brasileiros.
Caminho para a sustentabilidade
Apesar do cenário desafiador, o Brasil possui fatores atenuantes: a maior parte de sua dívida é emitida em reais, as reservas internacionais são robustas e o mercado doméstico tem capacidade de absorver os títulos. Isso reduz o risco de uma crise de balanço de pagamentos. Para romper o ciclo de desconfiança e juros altos, o país precisa de resultados primários consistentemente positivos. O FMI sugere um superávit de 1,5% do PIB para estabilizar a dívida a médio prazo, embora especialistas como Gabriel Barros acreditem que um ajuste mais substancial, próximo a 4% do PIB, seria necessário dada a dimensão do desequilíbrio acumulado. Este ajuste, contudo, enfrenta barreiras políticas significativas, com o risco de recessão em caso de cortes abruptos ou alívio temporário com medidas insuficientes.
No cenário internacional atual, marcado por incertezas globais, o Brasil pode encontrar uma janela de oportunidade. Como uma das poucas economias emergentes grandes, líquidas e diversificadas, o país pode atrair fluxo de capital. No entanto, essa conjuntura favorável apenas “compra tempo”, conforme observa Barros, e não substitui a necessidade premente de reformas estruturais, controle dos gastos públicos e estímulo ao crescimento econômico sustentável. A sustentabilidade da dívida brasileira dependerá, portanto, da capacidade do país de aproveitar essa oportunidade para consolidar suas contas e trilhar um caminho de prosperidade.
Fonte original: https://www.moneytimes.com.br/brasil-deve-menos-que-paises-desenvolvidos-mas-paga-mais-o-paradoxo-da-divida-publica-jcav/



