Uma pesquisa pioneira identificou fungos em solos da Caatinga com notável capacidade de combater doenças agrícolas e resistir a temperaturas elevadas. O estudo, focado em espécies nativas do gênero Trichoderma, pavimenta o caminho para o desenvolvimento de bioinsumos mais eficientes e adaptados às condições extremas do semiárido brasileiro, oferecendo uma alternativa sustentável aos defensivos químicos.
A investigação minuciosa coletou 14 isolados pertencentes a cinco espécies de Trichoderma em áreas de vegetação original e lavouras irrigadas de melão, nos estados da Bahia e Piauí. Os microrganismos foram submetidos a testes rigorosos para avaliar sua eficácia no controle de patógenos, sua tolerância a altas temperaturas e a capacidade de produzir esporos em quantidades viáveis para aplicação comercial.
Os resultados preliminares são promissores: parte desses fungos demonstrou aptidão para combater microrganismos que causam podridões e murchas em diversas culturas. Adicionalmente, isolados extraídos de áreas cultivadas exibiram uma resiliência superior ao calor, característica crucial para produtos agrícolas em regiões de clima árido.
Para os pesquisadores envolvidos, essas descobertas representam um avanço significativo para a criação de biofungicidas customizados para o semiárido. Contudo, ressaltam a necessidade de validação através de testes em campo antes de qualquer aplicação em larga escala.
Diversidade e Adaptação dos Fungos
As cinco espécies de Trichoderma identificadas foram: Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale. A composição dessas comunidades microbianas mostrou variações de acordo com o uso e as propriedades químicas do solo.
A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, é reconhecida por sua escassez de chuvas e altas temperaturas, mas também tem testemunhado a expansão da agricultura irrigada, incluindo culturas de alto valor comercial como o melão. No entanto, o cultivo intensivo pode propiciar o surgimento de doenças de solo causadas por patógenos como Fusarium, Macrophomina, Rhizoctonia e Pythium, responsáveis por perdas significativas de produtividade.
Segundo Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e coautor do estudo, a compreensão das interações entre microrganismos benéficos e patógenos é vital para desenvolver estratégias de manejo que dependam menos de fungicidas químicos e sejam mais resilientes às alterações climáticas.
Mecanismos de Combate e Tolerância ao Calor
Os fungos do gênero Trichoderma empregam diversos mecanismos de controle biológico. Eles podem competir com patógenos por nutrientes, parasitar outros fungos e sintetizar substâncias que inibem o desenvolvimento de organismos causadores de doenças. Algumas espécies ainda são capazes de estimular as defesas naturais das plantas, promover o crescimento vegetal e aumentar a tolerância a estresses como seca e salinidade.
No estudo, foram avaliados dois mecanismos principais: o confronto direto – por competição e micoparasitismo – e a produção de compostos voláteis que impedem o desenvolvimento de patógenos mesmo sem contato físico. Os testes abrangeram cinco patógenos agrícolas: Fusarium sulawesiense, Fusarium solani, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani e Pythium myriotylum.
Um dos resultados mais impactantes foi a maior tolerância térmica observada nos isolados provenientes de lavouras de melão, em comparação com aqueles de vegetação nativa. Submetidos a temperaturas de até 40°C, fungos das espécies Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides e Trichoderma virens de solos agrícolas demonstraram maior resistência ao estresse térmico a 35°C, sugerindo uma adaptação ao ambiente irrigado do semiárido.
A tolerância ao calor é um fator crítico para a eficácia de bioinsumos comerciais, frequentemente comprometida quando usados em condições climáticas distintas de suas regiões de origem.
Eficiência e Produção de Esporos
A pesquisa também revelou que a atuação dos fungos varia conforme o organismo causador da doença. O confronto direto foi mais eficaz contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, enquanto a produção de compostos voláteis teve papel crucial no controle de Pythium myriotylum e espécies de Fusarium, chegando a reduzir o crescimento patogênico em mais de 70% em alguns testes. Entre os isolados, o Trichoderma koningiopsis se destacou pela performance consistente contra todos os patógenos.
A produção de esporos, essencial para a viabilidade comercial de biofungicidas, também foi avaliada. Isolados de Trichoderma asperelloides e Trichoderma asperellum se mostraram mais prolíficos, gerando mais de 1,4 bilhão de conídios por grama de substrato em dez dias. Contudo, observou-se que a alta capacidade de controle biológico nem sempre está associada à alta produtividade de esporos.
Rodrigo Mendes, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, destaca que tanto as condições naturais quanto as práticas agrícolas modelam a composição das comunidades microbianas da Caatinga, com Trichoderma virens e Trichoderma asperellum associados a solos mais férteis, enquanto Trichoderma spirale se relaciona a solos ácidos e ricos em alumínio e ferro, típicos de ambientes naturais.
Perspectivas Futuras
A biodiversidade microbiana da Caatinga pode, assim, fornecer microrganismos já adaptados ao calor e à escassez hídrica. A expectativa é que biofungicidas desenvolvidos a partir desses organismos locais ofereçam maior persistência e sobrevivência do que produtos originários de outras regiões climáticas.
Os próximos passos incluem testes em campo, avaliação da capacidade dos fungos de colonizar plantas de melão e análises de seus efeitos no crescimento e produtividade. O estudo de consórcios microbianos, combinando diferentes espécies ou isolados de Trichoderma, também surge como uma promissora via para ampliar o controle de doenças e a tolerância das plantas a estresses hídricos e térmicos.
Fonte original: https://www.canalrural.com.br/agricultura/fungos-da-caatinga-podem-combater-doencas-agricolas-e-resistir-ao-calor-extremo/



