Um espetáculo provocador que conecta a perda de memória biológica à invisibilidade social.
São Paulo recebe nos próximos dias um convite à reflexão profunda sobre temas sensíveis e urgentes. O espetáculo ‘Elefante’, do Grupo de Pesquisas Entre Atlânticas, está em cartaz com entrada gratuita no Teatro Paulo Eiró e propõe um mergulho nas complexidades do Alzheimer e do racismo estrutural no Brasil.
O que aconteceu
A trama de ‘Elefante’ se desenrola a partir de duas narrativas aparentemente distintas, mas interligadas pelo conceito de ‘esquecimento’. De um lado, Célia, uma idosa branca que enfrenta o Alzheimer e a dura realidade do abandono familiar. Do outro, Xhosa, uma mulher negra cuja memória social é apagada, representando a invisibilidade das trabalhadoras domésticas e a persistência de lógicas de trabalho análogo à escravidão.
A diretora e dramaturga Beatriz Nauali explica a representatividade de Xhosa: “Não só as trabalhadoras domésticas, mulheres negras que são a base da pirâmide social no Brasil, como também toda uma comunidade, a comunidade negra que vem sendo marginalizada historicamente, oprimida, violentada e esquecida”. A encenação também traz outros personagens que complexificam a dinâmica, como o neto de Célia e um vizinho, Caim, um homem negro que oferece apoio à idosa em sua vulnerabilidade, mostrando, segundo Nauali, “os giros de 360 na história”.
Entenda o caso
O espetáculo busca traçar um contraponto entre a doença biológica, o Alzheimer, e o que pode ser considerado uma ‘doença social’, o racismo estrutural. Essa dualidade permite explorar como diferentes formas de esquecimento – seja pela memória afetada ou pela negligência social – impactam vidas e comunidades. O Grupo de Pesquisas Entre Atlânticas, responsável pela montagem, é composto por artistas e pesquisadores da Bacia do Juquery, uma região periférica da Grande São Paulo, trazendo uma perspectiva única e enraizada nas realidades sociais que a peça aborda.
Impacto para a população
A peça ‘Elefante’ vai além do palco, oferecendo ao público uma oportunidade de confrontar realidades desconfortáveis e pouco discutidas. Ao trazer à tona o abandono de idosos com Alzheimer e a invisibilidade de mulheres negras trabalhadoras, o espetáculo força a audiência a refletir sobre como a sociedade lida com suas vulnerabilidades e injustiças. A discussão sobre racismo estrutural, especialmente no contexto do trabalho doméstico, convida a uma autocrítica e ao reconhecimento de lógicas que ainda perpetuam desigualdades históricas.
Após cada apresentação, o grupo promove uma roda de conversa, ampliando o debate e permitindo que os espectadores compartilhem suas percepções e questionamentos, transformando a experiência artística em um catalisador para a consciência social.
Quem estiver em São Paulo pode conferir ‘Elefante’ nesta sexta-feira e sábado, às 20h, e no domingo, às 19h. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados pela plataforma Sympla ou diretamente na bilheteria do Teatro Paulo Eiró, uma hora antes do início. Uma chance de se conectar com uma arte que não apenas entretém, mas provoca e educa.



