A Vale (VALE3) está recalibrando sua estratégia em um cenário complexo, onde a pressão sobre os preços do minério de ferro e os custos de frete contrastam com o promissor potencial de crescimento do cobre. Análises recentes de instituições financeiras como Goldman Sachs, JPMorgan, XP Investimentos e Bradesco BBI, após encontros com a administração da mineradora, indicam um foco em projetos de metais básicos e uma postura mais conservadora na alocação de capital, com reflexos na política de dividendos.
O ambiente para o minério de ferro permanece desafiador, conforme apontado pelo Goldman Sachs, devido à fraqueza nos preços e aos fretes elevados. A gestão da Vale sinaliza que mais de 120 milhões de toneladas anuais da oferta global operam com prejuízo quando os preços oscilam entre US$ 90 e US$ 95 por tonelada, o que pode levar a uma racionalização da produção por parte de empresas com custos mais altos. Além disso, a demanda chinesa, um pilar crucial, deve registrar uma queda de cerca de 10 milhões de toneladas na produção de aço até 2026, limitando a recuperação dos preços. Contudo, a Vale vislumbra mercados como Sudeste Asiático (excluindo China), Índia e Vietnã como fontes potenciais de compensação parcial.
Para mitigar a volatilidade, a Vale adota uma estratégia de proteção por meio de contratos de longo prazo, cobrindo entre 70% e 75% de seus volumes de frete, segundo o JPMorgan, e estando totalmente protegida para 2026. A companhia reforça seu compromisso com a geração de valor, afirmando que não embarcará minério caso a operação não seja rentável, estratégia batizada de “valor sobre volume”. A flexibilidade na mistura de diferentes tipos de minério também permite ajustar a oferta às condições de mercado. Adicionalmente, a XP Investimentos sugere que um novo decreto sobre proteção de cavernas poderia reduzir riscos operacionais de longo prazo no Sistema Norte, aumentando a flexibilidade no planejamento e sustentando a produção.
Em contrapartida, o cobre emerge como a principal avenida de crescimento da mineradora. A Vale pretende avançar em seu portfólio de projetos da Vale Base Metals (VBM), divisão que as quatro casas de análise enxergam com significativo potencial de criação de valor. Embora o Goldman Sachs observe que a materialização plena desse crescimento ainda esteja distante, o JPMorgan ressalta que a administração da Vale percebe um valor intrínseco no negócio que ainda não está plenamente precificado pelo mercado. A abertura de capital (IPO) da VBM é uma alternativa estratégica em consideração, mas não iminente, pois a Vale pode financiar o crescimento internamente, especialmente em projetos brasileiros com baixa intensidade de capital, como os de Carajás, sem comprometer a remuneração aos acionistas.
Na alocação de capital, a Vale mantém o minério de ferro e o cobre como prioridades estratégicas. O níquel, embora continue sendo um negócio central, tem seu foco direcionado ao aumento da rentabilidade e dos retornos, e não à expansão de volumes. Lítio e terras raras, por sua vez, não figuram atualmente no foco estratégico da companhia.
A Vale reitera seu compromisso com dividendos e recompras de ações, mas adota uma postura mais conservadora no curto prazo, dada a conjuntura do minério de ferro. A XP aponta que avaliações sobre eventuais distribuições adicionais serão feitas no final do ano. O Bradesco BBI corrobora essa visão, indicando que o espaço para dividendos extraordinários se tornou mais limitado. No entanto, o banco destaca a manutenção de um ritmo operacional robusto em todas as divisões, com melhorias contínuas tanto no minério de ferro quanto nos metais básicos.
As visões dos analistas divergem ligeiramente: o Goldman Sachs mantém recomendação neutra para a Vale, justificando-a pela expectativa de preços estáveis ou em queda para os metais, pela percepção de que grande parte da melhora operacional já foi entregue e pelo crescimento do cobre ainda distante. O banco também considera a avaliação menos atrativa após a reprecificação das ações da companhia. Em contraste, o Bradesco BBI mantém recomendação de compra, com preço-alvo de US$ 19 para o ADR da Vale, ressaltando o ritmo operacional forte. Em síntese, as análises convergem na percepção de um cenário desafiador para o minério de ferro, mas sublinham fatores de proteção e as novas fontes de crescimento, principalmente a expansão no setor de cobre, como elementos-chave para a tese de investimento da mineradora.
Fonte original: https://www.infomoney.com.br/mercados/vale-vale3-mira-cobre-enquanto-minerio-perde-forca-e-dividendos-ficam-mais-contidos/



