A percepção comum de que ações com alta distribuição de dividendos funcionam como um porto seguro em períodos de taxas de juros elevadas nem sempre se sustenta na prática. Uma análise recente da XP Investimentos desmistifica essa ideia, revelando que, embora exista um prêmio para investidores focados em companhias que mais remuneram seus acionistas, essa vantagem se dilui quando comparada a outras abordagens de mercado.
O estudo da XP simulou o desempenho de uma carteira teórica composta pelas 20% maiores pagadoras de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) nos últimos 12 meses, confrontando-a com uma carteira das 20% menores pagadoras. Os resultados indicaram que as ações de alta distribuição renderam 13,4% ao ano, enquanto as de baixa distribuição registraram uma perda anual de 2,5%. Uma estratégia que combina a compra das primeiras com a venda das segundas, batizada de “fator Dividendos”, gerou um retorno de 12,8% ao ano na simulação, com rebalanceamento mensal e pesos iguais.
Contrariando a intuição, o relatório liderado pelo estrategista-chefe Fernando Ferreira aponta que o prêmio do fator Dividendos se acentua em ciclos de juros crescentes não por uma recompensa intrínseca do mercado às empresas distribuidoras, mas porque as ações de companhias que pagam pouco tendem a cair com maior intensidade. Esse comportamento, segundo a XP, não é exclusivo dos dividendos, manifestando-se em diversas estratégias cujos ganhos dependem da queda acentuada de ativos contra os quais se aposta.
A análise também estabelece uma forte correlação da estratégia de dividendos com os fatores “Valor” (0,70) e “Baixo Risco” (0,67), levando os estrategistas a classificar os dividendos como parte da família Valor. A distinção reside no fato de os dividendos serem o único sinal que exige um pagamento efetivo em dinheiro aos acionistas.
O estudo desafia ainda a noção de que carteiras de dividendos concentram-se em setores defensivos e regulados, vistos como alternativas à renda fixa. Historicamente, utilidades públicas representam 19% da carteira de maiores pagadoras, sendo a maior fatia, mas o restante se distribui por setores como tecnologia, mídia, telecomunicações, varejo, bancos e mineração. A XP conclui que se trata de uma carteira diversificada e que o prêmio dos dividendos não é, portanto, uma alocação disfarçada em empresas de utilidade pública.
Um ponto crucial da pesquisa é a observação sobre recompras de ações. Embora o cálculo da XP não as inclua por sua baixa representatividade no mercado brasileiro, dados da CVM revelam que apenas cerca de 30% dos programas de recompra anunciados desde 2016 resultaram em uma redução líquida superior a 1% das ações em circulação, evidenciando uma lacuna entre o anúncio e a execução. Com a retenção de imposto na fonte sobre dividendos, em vigor desde janeiro, a XP antecipa um incentivo para empresas trocarem distribuições por recompras. No entanto, devido à defasagem no ajuste das políticas corporativas, uma mudança significativa de comportamento pode se manifestar apenas a partir de 2027.
Fonte original: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/acao-de-dividendo-e-bote-salva-vidas-em-cenario-de-juro-alto-nao-e-bem-assim/



